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Entrevista com o coordenador Científico
da Rede Rio Luís Felipe de Moraes
O coordenador Científico da Rede Rio de Computadores,
professor Luís Felipe de Moraes, concedeu, recentemente,
entrevista ao Portal Módulo e-security, da Módulo
Security Solutions, consultoria que atua na área de
segurança da informação, na América
Latina, e que já realizou mais de 1.200 projetos, entre
os quais a participação nas eleições
eletrônicas do Brasil e a entrega do Imposto de Renda
via Internet.
Luis Felipe é engenheiro eletricista/telecomunicações
- PUC-Rio (1973), mestre em Ciências em Engenharia Elétrica/Telecomunicações
- PUC-Rio (1976) e Ph.D. pela UCLA (University of California
at Los Angeles) em Engenharia Elétrica, com especialidade
em redes de telecomunicações e comunicações
de dados. É coordenador do Laboratório de Redes
de Alta Velocidade (RAVEL), ligado ao programa de Engenharia
de Sistemas e Computação da Coordenação
dos Programas de Pós-graduação em Engenharia
(COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Veja a seguir uma edição com os principais pontos
da entrevista, cuja versão original, assinada pelo
jornalista Luis Fernando Rocha, pode ser consultada no portal
www.modulo.com.br .
União entre juventude
e experiência
"Tenho
alunos aqui que começaram comigo no quarto ou quinto
período e já estão fazendo mestrado.
Isso é muito bom, quanto mais novo, normalmente, é
mais fácil de aprender certas coisas. É que
nem a história do vídeo game. Quanto mais velho,
mais difícil de aprender a jogar. Agora, se você
der para uma criança de cinco anos ela aprende. Por
que? Porque é a cultura atual. É aquela história
do diamante que você precisa lapidar (e é a história
do script kiddie). O cara sabe um monte de coisas, mas é
uma força dispersa, uma energia dispersa. O que você
tem que fazer é pegar essas pessoas e mostrar o lado
bom de tudo isso. Saber orientar, pegar essa energia - que
é muita! - e concentrar ela num contexto positivo.
Assim, eles responderão de boa maneira", afirma.
Opção por trabalhar com segurança
da informação
“Meu interesse pela área é antigo. Não
especificamente na área de segurança da informação
como ela é conhecida hoje, mas trabalhei com criptografia
muitos anos atrás, na época que fiz meu doutorado
(1981).“
“Nessa
época, trabalhei muito com teoria da informação
e a base da criptografia é a teoria da informação.
De alguma forma, estava muito ativo naquela época,
por exemplo, o algoritmo RSA, que é super conhecido
hoje. O artigo do RSA é de 1978 - eu estava fazendo
o doutorado na época em que o pessoal trabalhava com
o algoritmo. A área de criptografia estava muito efervescente,
mas era muito mais secreta do que hoje, que é mais
difundida. Hoje qualquer pessoa pode ter criptografia em seu
computador.”
Quando apareceram os problemas mais atuais na área
de segurança da informação, diria que
esse meu interesse se tornou mais acentuado - de resgatar,
inclusive, uma experiência que tive há alguns
anos na área. Ele se tornou maior em 2000, quando percebi
que as pessoas, de forma geral, estavam muito despreocupadas
em relação à segurança.”
“Por
exemplo, em fevereiro de 2000 aconteceram os ataques DDoS
contra grandes sites como o eBay.com, Amazon.com etc. E já
vinha percebendo que os problemas de vírus aumentavam
- no laboratório, por exemplo, sempre tive essa preocupação.
Então, passei a expandir meus limites além da
universidade em 2000, data que inauguramos o portal de segurança
Lockabit, criado em conjunto com profissionais do programa
de Sistemas de Computação da UFRJ.”
A História do RAVEL
“O
Ravel (Laboratório de Redes de Alta Velocidade), da
Coppe/UFRJ está ligado ao Programa de Engenharia de
Sistemas e Computação (PESC/Coppe). Foi inaugurado
em 1988 como resultado de um convênio assinado com a
3Com. Os objetivos do Ravel estão em consonância
com os da Coppe: desenvolver atividades ligadas à pesquisa,
ensino e extensão.”
“As atividades do Ravel envolvem ainda projetos, modelagens
e avaliação de desempenho de redes, o desenvolvimento
e o estudo de diversas aplicações (multimídia,
voz sobre IP, gerenciamento, entre outras).”
“Mais recentemente foram criados no Ravel núcleos
específicos envolvendo segurança de informações
e de redes e sistemas de redes sem fio. Em cada um desses
grupos de trabalho são tratados aspectos diversos que
envolvem novas tecnologias e soluções para problemas
existentes.
”“Por
exemplo, na área de segurança temos atuado em
criptologia (algoritmos de criptografia e criptoanálise),
gerenciamento integrado de sistemas de segurança (IDS
e Firewall), IPSec/VPNs, PKI, técnicas de segurança
para redes sem fio e outros temas.”
Perfil
essencial para um profissional da área de segurança
da informação
“Depende. A área de segurança de informação
é muito abrangente. Ela pode incluir desde segurança
de acesso físico - das pessoas a certos lugares que
devem ser protegidos por abrigar sistemas de acesso restrito
-, até a segurança dos bits que transitam entre
máquinas ligadas à Internet. Nesse contexto
amplo, eu diria que o profissional deve ter uma formação
voltada para a área de ciência da computação
(informática/engenharia de computação/tecnologia
da informação), com certa ênfase em linguagens
de programação, sistemas operacionais e redes.
Isso seria o mínimo, o essencial.”
“Além disso, seria importante ampliar conhecimentos,
incluindo aspectos básicos (as principais idéias)
sobre criptografia, assinaturas digitais, PKI e outros mais
específicos da área de segurança propriamente
dito. Daí em diante a experiência é o
que passa a valer, pois a cada dia que passa existem novas
técnicas (de ataque/contra-ataque, vírus/antivírus
etc) sendo criadas. Além dos ambientes que também
se modificam com o correr do tempo, gerando novos problemas.
”“Um
bom exemplo disso é observado em relação
as redes sem fio, que não eram tão populares
até pouco tempo atrás. Com a popularização
dessa tecnologia, os problemas que já existiam nas
redes cabeadas passaram a demandar um cuidado mais especial,
em função do novo ambiente. Um profissional
envolvido nessa área deve estar sempre preparado para
acompanhar estas mudanças e evoluções.”
Participação das
universidades no lançamento de novas tecnologias
“Acho que sim. Aí vem aquela história
da tecnologia e do padrão. O WEP é o padrão
de segurança do protocolo 802.11b, que é o mais
usado para integração de redes sem fio hoje.
Esse é um protocolo IEEE, não é um protocolo
ISO.”
“O protocolo ISO, em geral, é mais bem elaborado
por entrar vários aspectos envolvendo organismos internacionais.
O que observamos na prática é que os fabricantes
de hardware e de software querem ter padrões. Por que?
Porque a partir do momento que eles têm o padrão,
eles têm a garantia que podem fabricar um produto e
uma linha de produção montada em cima disso.
Eles queimam um chip, ele é padrão, esse chip
fala com outros e vão conseguir vender, porque o fabricante
quer vender. “
“E
aí nessa pressa de gerar um padrão, acaba-se
gerando um padrão mais fraco e os processos sendo atropelados.
A universidade nesse contexto teria pouco a contribuir, porque
procuramos ir a fundo nos problemas, demora um pouco mais.
E os fabricantes não podem esperar, pois eles têm
os "borders" deles, fazem reuniões periódicas
para aprovar esses padrões.”
“O
caso do WEP é um exemplo clássico desse cenário.
Ele não é ruim pelo protocolo que utiliza, mas
por causa da implementação do protocolo utilizado.
O WEP usa o RC4, que é um protocolo de criptografia
criado por Rivest - um dos caras do RSA, expoente na área
e professor do MIT.”
“Não há qualquer problema no RC4, que
é utilizado quando você acessa a web para pagar
uma conta no banco on-line, para verificar seu saldo de sua
conta ou para fazer compras no site da Amazon. Ele funciona
muito bem, é muito robusto. No entanto, ele está
sendo mal implementado no WEP.”
“Agora, a universidade também não participa
desse processo porque não quer. O padrão é
aberto, ele não é proprietário, de uma
empresa. Ele está vinculado ao IEEE (Institute of Electrical
and Electronic Engineers), sou membro desse grupo, mas mesmo
quem não é pode participar das listas de discussão
e apresentar sugestões.”
“Por outro lado, se a universidade mandasse uma proposta
geraria uma maior discussão e mais tempo para geração
do padrão e os caras que querem um padrão para
montagem da linha de produção e ganhar dinheiro,
não podem esperar tanto. Há nesse processo um
jogo que não dá para definir. Mas acho que a
universidade poderia participar do processo e contribuir definitivamente.”
Criptografia
e tecnologia de segurança (nota da redação:
neste momento é citado o exemplo recente do uso da
esteganografia em um jornal de circulação para
presos do sistema penitenciário de Minas Gerais).
“Diria que, na verdade, isso existe desde os primórdios
dos tempos - que começou com a cifra de César
até a criptografia quântica nos tempos atuais
- porque esse é o caminho mais natural. Quero dizer,
isso ocorre na cabeça das pessoas naturalmente.”
“Os
presos estão usando isso, porque é natural.
É aquele negócio que aprendemos desde criança.
Quando você quer escrever uma mensagem para um cara
e não quer que o outro entenda, o que vem primeiro
na sua cabeça, sem saber que está utilizando
a criptografia? Então, diria que esse é um caminho
natural e ele é um tanto mais sofisticado na medida
que vai avançando em nível matemático,
em nível teórico etc. Mas ele começa
como raciocínio natural.
”A
tecnologia avança, mas as ameaças também.
Como explicar essa afirmação?
“Porque a tecnologia funciona para os dois, não
é mesmo? Na verdade, as contramedidas surgem muito
a partir das medidas. As pessoas nem sempre são pró-ativas,
elas esperam acontecer e depois que acontece tomam alguma
medida. Esse é um aspecto.”
“Agora, elas passam a ser pró-ativas a partir
de políticas de segurança que são estabelecidas.
No entanto, políticas de segurança nem sempre
podem detectar falhas futuras. Buracos são encontrados
onde não existiam e, através da própria
tecnologia, são criadas as contramedidas.”
“O grande problema da segurança está nas
pessoas. Você pode ter a tecnologia mais avançada
do mundo, que ela não vai dar conta. Inclusive, o Bruce
Schneier, profissional muito conhecido no meio, abre seu livro
"Secret and Lies", lançado em 2000, falando
sobre isso.”
“Em parte, ele escreveu esse livro para reparar um equívoco
que tinha cometido. Qual era esse equívoco? Quando
ele escreveu o livro "Applied Cryptography", ele
dizia que a criptografia resolvia qualquer problema. No preâmbulo
do "Secret and Lies", ele coloca isso: "Peço
desculpas aos leitores por um equívoco que cometi:
criptografia não resolve tudo".”
“A
matemática não resolve tudo, como a tecnologia
não resolve tudo. Por que? Porque a matemática
não está no vácuo, ela tem que estar
em algum lugar. E nesse lugar, onde estão localizadas
a matemática, a criptografia e a tecnologia, está
cercado de pessoas.”
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